april 2020

Noites contra o COVID-19 | Abordagem à doença não-COVID em tempos de pandemia

Speciality

Public health medicine

À medida que a pandemia avança, aumentam também as preocupações em torno dos doentes não-Covid, que estão a evitar recorrer a serviços de urgência ou a adiar tratamentos com medo de serem infetados pelo SARS-CoV-2. Depois da Sociedade Portuguesa do AVC (SPAVC) ter alertado que, por causa do novo coronavírus, se verifica uma tendência para os doentes desvalorizem sintomas ou recusarem pedir ajuda médica, a questão ganhou especial atenção mediática com a divulgação de um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Universidade Nova de Lisboa. O documento aponta para uma redução de 45% das idas às urgências no mês de março, em comparação com a média de episódios registados entre 2014 e 2019. Uma situação preocupante, já que implica o adiamento de “situações que se tornarão mais graves no futuro”, conforme sublinham os especialistas que assinam o estudo. Outros dados vindos a público esta semana indicam que houve um crescimento da mortalidade ao longo do mês de março, período em que se verificaram, pelo menos, mais 600 vítimas mortais do que seria expectável. A situação levou a Ordem dos Médicos a pronunciar-se sobre o tema. Numa nota enviada às redações, o bastonário reconhece que “numa pandemia como a que estamos a viver é impossível conseguirmos manter toda a atividade normal e responder aos doentes com COVID-19 no SNS”, mas lamenta que se “esteja a fazer uma gestão meramente política desta pasta, em que parece que só os números da pandemia importam e todas as outras doenças e mortes deixaram de existir”. O tema foi abordado em mais uma sessão de “Noites contra a COVID-19” que contou com a participação de Ana Serrão Neto, coordenadora de Pediatria e Neonatologia dos Hospitais CUF Descobertas e CUF Torres Vedras; Ana Raimundo, diretora clínica da CUF Oncologia; e Micaela Seemann Monteiro, Chief Medical Officer para a transformação digital CUF. A moderação da conversa ficou a cargo de Catarina Palma dos Reis, médica de Ginecologia e Obstetrícia da Maternidade Alfredo da Costa. Segundo as oradoras, “a pandemia acelerou o desenvolvimento de uma consciência coletiva, com particular ênfase nos profissionais de saúde e nas administrações hospitalares, de que a digitalização é uma necessidade”, mas sublinham que o caminho percorrido anteriormente conferiu a capacidade de, num contexto muito particular e num período de tempo muito curto, escalar os serviços de teleconsulta. Além disto, as unidades reorganizaram os circuitos hospitalares de forma a separar doentes COVID e doentes com outras patologias e, por isso, reafirmam: continuam a existir outras doenças, com taxas de mortalidade iguais ou superiores, que não devem ser descuradas.