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Noites contra o COVID-19 | Saúde Mental dos profissionais de saúde e COVID-19 - uma visão a curto e longo prazo

A pandemia veio agravar os principais fatores de exaustão e stress que já caracterizavam a rotina dos profissionais de saúde. Neste contexto, que ações preventivas devem ser postas em prática e como deve ser gerida esta exigência a longo prazo? Desde o início da pandemia, vários estudos têm apontado para a mesma conclusão: os profissionais de saúde apresentam sinais de burnout, stress e ansiedade. Um questionário, realizado entre os dias 9 e 18 de maio, e que contou com a participação de 1500 inquiridos, entre os quais médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, farmacêuticos e técnicos de diagnóstico, concluiu que 51% dos profissionais de saúde estão “em exaustão física ou psicológica” e que 35% “apresentam mesmo elevados níveis de exaustão”. Um outro estudo desenvolvido pelo Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS), que inquiriu 767 enfermeiros em atividade entre 31 de março e 7 de abril, concluiu que estes profissionais estão “mais ansiosos, com mais sintomas depressivos e com níveis mais elevados de stress”. Os dados divulgados referem também um elevado receio de infetar amigos e família. O tema foi mote para mais uma sessão das Noites Contra o COVID-19. O webinar “Saúde Mental dos profissionais de saúde e COVID-19: uma visão a curto e longo prazo” contou com a participação de Marco Gonçalves, assistente hospitalar no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, Miriam Garrido, interna de Psiquiatria no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, Paulo Martins, diretor do Serviço de Medicina Intensiva do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Pedro Morgado, psiquiatra no Hospital de Braga e vice-presidente da Escola de Medicina da Universidade do Minho, e Renata Benavente, professora associada na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e vogal da Direção Nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Incerteza, exigência e mudança de funções na origem da ansiedade Entre os fatores que tornam os profissionais de saúde um grupo potencialmente vulnerável a sofrer problemas de saúde mental no contexto de pandemia, Miriam Garrido destaca o “nível de exigência sem precedentes” a que foram sujeitos, na medida em que o volume e o número de horas de trabalho aumentaram, bem como a introdução de equipamentos de proteção individual que constituem uma barreira adicional à comunicação, além do desgaste físico que acarretam. Além disto, a médica reforçou também que o facto de muitos profissionais serem colocados a desempenhar funções que não as habituais “acrescentou uma grande componente de incerteza ao turbilhão que estava a acontecer nos hospitais”, referindo-se particularmente à reorganização dos serviços e à implementação de novos protocolos de atuação. Sobre o mesmo tema, Marco Gonçalves acrescentou ainda que, num contexto extraordinário como o de uma pandemia, existe o risco de se desenvolverem estereótipos, preconceitos e comportamentos discriminatórios face aos profissionais de saúde por serem um grupo em contacto direto com doentes infetados e que, face à escassez de informação credível, a equipa do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa teve que construir linhas de orientação internas e utilizá-las, simultaneamente, para esclarecer os doentes. Somadas todas as circunstâncias, os profissionais de saúde apresentaram níveis de ansiedade superiores, insónias, sentimentos de medo, tristeza e culpabilidade e dificuldade em tomar decisões. As vulnerabilidades que a pandemia veio acentuar e a importância do autocuidado �� semelhança das intervenções anteriores, Renata Benavente enfatizou que as alterações na rotina dos profissionais de saúde e a incerteza face ao retorno à normalidade são dos principais fatores que podem desencadear níveis de stress acrescido, sinais que não devem ser negligenciados. Pedro Morgado defendeu que é preciso combater a ideia de que os profissionais de saúde são heróis que têm de estar sempre disponíveis, o que, na opinião do psiquiatra, é um dos principais motivos para a exaustão dos mesmos. “É muito importante que os profissionais de saúde reflitam sobre a necessidade de cuidarem de si para estarem capazes de cuidar dos outros”, rematou. Por outro lado, o também vice-presidente da Escola de Medicina da Universidade do Minho clarificou que os estudos longitudinais revelam um efeito de adaptação ao longo do tempo: um início caracterizado por níveis muito elevados de ansiedade que vão diminuindo ao longo do tempo. O mesmo referiu Paulo Martins sobre a experiência vivida no Medicina Intensiva do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra: “O grande momento de ansiedade foi o inicial. A partir do momento em que recebermos o primeiro doente a equipa lidou perfeitamente com a situação”. O psiquiatra Pedro Morgado acrescentou ainda que, no contexto da pandemia, todos os fatores já conhecidos para uma pior saúde mental das equipas mantêm-se: “Serviços em que os profissionais têm baixa autonomia e baixa capacidade de decidir são aqueles onde os profissionais estão mais exaustos e apresentam maiores níveis de absentismo”. Com base num estudo que será brevemente publicado, revelou também que os médicos apresentam níveis de stress mais elevados que a população em geral, que os níveis de ansiedade dos médicos na linha da frente são significativamente superiores aos restantes profissionais, e que os médicos apresentam mais sintomas obsessivos que a restante população. Sobre o que faz falta para melhorar a saúde mental, as respostas convergem para melhores condições de trabalho: segurança, nomeadamente equipamentos de proteção individual em qualidade e quantidade, mais períodos de descanso entre turnos e melhores condições salariais. “Estes dados são muito semelhantes ao que aconteceria numa situação de não pandemia”. Entre as respostas encontradas para superar os desafios impostos pela pandemia, a Ordem dos Psicólogos criou um gabinete de crise responsável por elaborar orientações para a intervenção psicológica à distância, documentação para a população em geral com materiais sobre questões de violência no contexto familiar ou a especificidade dos idosos em Estruturas Residenciais para Idosos, linhas de orientação para o autocuidado dos profissionais de saúde e implementou a linha de Aconselhamento Psicológico do SNS24. Uma outra iniciativa – a Plataforma Cuidar de Quem Cuida – da Escola de Medicina da Universidade do Minho nasceu para oferecer apoio gratuito à distância na área da saúde mental aos profissionais em instituições na linha da frente. Atualmente já foram realizadas mais de 150 consultas. “Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a Ata Médica Portuguesa, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a Evidentia Médica e a UpHill.

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june 2020

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Noites contra o COVID-19 | Educação médica contínua durante a Covid-19: uma perspetiva transatlântica

A COVID-19 acelerou a digitalização do treino e da educação médica a nível global. Mudanças que demoravam anos a acontecer, passaram a realizar-se em poucos dias, o que levanta uma questão relevante: foi a pandemia o gatilho necessário para transformar a formação médica tanto nas escolas, como nos hospitais? Se antes a Saúde estava essencialmente conformada com o formato presencial, a pandemia obrigou o setor a reinventar-se em poucos dias: o que estava latente e em fase de desenvolvimento acabou por ser lançado num ápice, a atividade assistencial abraçou as teleconsultas, as aulas e formações médicas adotaram o formato online e a produção de conteúdo digital passou de recomendação a regra. Neste contexto, de que forma o digital se tornou um facilitador na Saúde? Até que ponto esta transformação vai chegar às escolas de medicina? Vamos abandonar os formatos tradicionais? Como evoluirá a educação médica nos próximos 5 anos? Estes foram alguns dos temas em discussão no webinar “Educação médica contínua durante a Covid-19: uma perspetiva transatlântica”, que juntou a visão portuguesa de Cláudia Silveira, Diretora do Lusíadas Knowledge Center do Grupo Lusíadas Saúde, e de Duarte Sequeira, COO e Cofundador da UpHill e Assistente Convidado da Universidade da Beira Interior (UBI) à perspetiva da brasileira Laura Schiesar, Diretora da Educação Corporativa do UnitedHealth Group (UHG) Brasil. Sofia Fernandes Martins, Head of Talent do Grupo Lusíadas, moderou o debate. Da discussão gerada pelas diferentes experiências e contextos no âmbito da Covid-19, destacaram-se cinco ideias do que se pode esperar do futuro da educação médica: 1. Um novo paradigma de treino na medicina Segundo Duarte Sequeira, a pandemia veio evidenciar de forma crítica o gap entre o conhecimento que os profissionais de saúde já têm e aquilo que precisam de saber de forma rápida em relação à evidência científica mais recente, pois ainda se está longe de um conhecimento aprofundado sobre a COVID-19. Neste sentido, para o cofundador da UpHill “aquilo que deve definir o paradigma de treino na medicina, é um modelo que permita ter a evidência científica mais recente e sob curadoria e aquela que é aplicável ao nosso contexto, entregue de forma rápida e em vários formatos (texto, protocolos clínicos, casos clínicos simulados) ao profissional para o preparar para qualquer mudança, seja ela mais lenta ou mais abrupta, como foi o caso atual”. 2. A abertura de novas carreiras dentro da medicina “A pandemia vai obrigar a mudanças e descoberta de novas áreas na medicina, resultando em novos perfis de médicos no futuro”. Esta é a visão de Claúdia Silveira, que vê uma maior aposta na área da investigação tecnológica, na aceleração da área de data medicine e um aumento da importância da área de epidemiologia e bioestatística. Para a Diretora do Lusíadas Knowledge Center do Grupo Lusíadas Saúde, no futuro vamos ter teckie doctors, focados em criar soluções tecnológicas para inovar o setor, data doctors, dedicados a entender e prever respostas com base nos dados, e analytics doctors, que definem as melhores medidas de prevenção com base nas estatísticas. 3. A revalorização do conhecimento dos profissionais de saúde Tanto no Brasil, como em Portugal, Laura Schiesar não tem dúvidas de que a pandemia trouxe uma revalorização do conhecimento dos profissionais de saúde e dos próprios Sistemas Nacionais de Saúde, sendo que, no Brasil, esta questão foi crítica. Durante a pandemia, foram os peritos a ser ouvidos. Segundo a Diretora de Educação Corporativa do UHG, “na visão de gestão de saúde, isto faz com que a importância de saber gerir uma crise tenha sido bastante reforçada em vários aspetos: não só na gestão hospitalar, no fornecimento adequado de equipamentos de segurança e na capacitação contínua dos profissionais, como na capacidade liderança e nas relações humanas”. 4. Um novo olhar sobre a empatia nas escolas médicas Numa altura em que assistimos a um reforço do aspeto humano, da solidariedade e da capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, Claúdia Silveira e Laura Schiesar vêm a empatia e a colaboração a sobressair como temas nas escolas médicas. O sentido de urgência que se instalou de forma generalidade para criar novas soluções, faz com que seja essencial treinar profissionais de saúde, não para trabalhar em silos, mas para passar a trabalhar de forma mais concertada, coesa, multidisciplinar e interdisciplinar. Segundo ambas, só assim conseguiremos prestar bons cuidados de saúde. 5. A importância de uma formação generalista Os três especialistas concordam que, dado o contexto urgente, a questão de um profissional ter uma formação mais generalista e de atuar de forma mais ampla tornou-se ainda mais relevante. O treino e a formação devem ser mais abertos, flexíveis e personalizados, focando também áreas de urgência e o uso de novas tecnologias. Está na altura de voltar a falar na inclusão de várias especialidades no perfil do profissional de saúde, pois também o doente pode apresentar várias patologias. Para isto, Duarte Sequeira acredita que não é necessário o profissional, previamente, treinar e aprender sobre certas matérias, desde que, no tempo certo e durante o tempo necessário, esse conteúdo lhe apareça de forma rápida e este o possa usar enquanto está perante um doente com uma patologia que desconhece. Ao pouparmos tempo aos profissionais, ajudando-os a adotarem as melhores práticas com base na evidência, estaremos a melhorar os resultados dos cuidados e a previsão de resultados. “Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a plataforma Evidentia Médica e a UpHill. O próximo webinar já está marcado para dia 17 de junho e será focado no tema Saúde Mental dos profissionais de saúde e COVID-19 - uma visão a curto e longo prazo.

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june 2020

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Noites contra o COVID-19 | Tratamento e acompanhamento de doenças raras em tempos de COVID-19

Os desafios de acompanhar doentes à distância, as preocupações acrescidas dos portadores de doenças raras e as respostas criadas durante a pandemia, em mais um webinar das “Noites Contra o COVID-19”. Na União Europeia, denominam-se por doenças raras as patologias que têm uma prevalência inferior a cinco casos em 10.000 pessoas. Em Portugal, segundo as informações divulgadas pela Direção-Geral da Saúde (DGS), estima-se que existam entre 5.000 e 8.000 doenças raras diferentes, afetando, no seu conjunto, até 6% da população, o que significa que existirão até 600 mil pessoas com estas patologias. Estas doenças necessitam de um acompanhamento permanente por uma equipa multidisciplinar e especializada, que permita orientar todo o envolvimento do doente, família e/ou cuidadores, e produzir melhorias significativas na qualidade de vida e custo-efetividade dos cuidados prestados. Neste sentido, a reorganização dos prestadores de cuidados de saúde para responder à pandemia colocou desafios acrescidos no acompanhamento destes doentes, devido à interrupção da atividade clínica não urgente e às potenciais complicações que daqui decorrem. Com moderação de Joana Cardoso, médica de Saúde Pública ACES Dão-Lafões, o webinar dedicado ao tema “Tratamento e acompanhamento de doenças raras em tempos de COVID-19” contou com a participação de Filomena Borges, responsável de comunicação da Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica (APELA), João Cabrita, fisioterapeuta na mesma instituição, e Tiago Rama, médico interno de formação específica em Imunoalergologia no Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ). O caso da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) Com a suspensão dos serviços presenciais nas instalações da APELA, desde o dia 18 de março, a Associação optou por lhes dar continuidade à distância, por forma a perceber as necessidades dos doentes, estabelecer pontes com estruturas de saúde locais e garantir que os processos não eram suspensos por causa da pandemia. Apesar dos constrangimentos e dificuldades inerentes ao contexto, houve respostas que, sublinhou Filomena Borges, foram tanto mais eficazes quanto o nível de preparação dos cuidadores informais: “Quanto mais bem capacitado estiver o cuidador, maior é a estabilidade das famílias e menor a necessidade de intervenção externa”. Por isso, a responsável de comunicação da APELA reforçou a necessidade de ser retomado, com urgência, o processo de regulamentação do estatuto de cuidador informal. Entre os principais desafios identificados, o fisioterapeuta João Cabrita destacou o facto de, numa fase inicial, muitos doentes terem recusado o atendimento para minimizar ao máximo o contacto com o exterior, ao qual acresce a apreensão da instituição relativamente à escassez de recursos técnicos e humanos no âmbito da prestação de cuidados em domicílio. Por outro lado, a necessária alteração e reorganização do funcionamento das estruturas hospitalares, com impacto no tempo entre o diagnóstico e a primeira consulta, foi outro dos aspetos mencionados durante a sessão. O caso da Mastocitose Da experiência vivida no CHUSJ, Tiago Rama referiu que a principal prioridade foi prevenir idas desnecessárias ao serviço de urgência, garantindo outras vias de contacto para situações agudas, nomeadamente para responder a necessidades de ajustes terapêuticos e aquisição de medicamentos órfãos, cuja dificuldade de abastecimento foi crítica no contexto pandémico. As principais preocupações face a estes doentes recaíram sobretudo em três frentes: por um lado, o facto de os doentes com mastocitose, sobretudo manifestações agressivas da doença, necessitarem de terapêuticas imunossupressoras e, consequentemente, o receio de que ficassem particularmente suscetíveis à infeção por SARS-CoV-2; por outro lado, uma vez que os mastócitos têm um papel relevante na promoção das inflamações, o receio de que um doente com mastocitose que testasse positivo para o COVID-19 desenvolvesse um quadro grave da doença; e, por fim, tendo em conta que os doentes mais jovens apresentam com grande frequência reações alérgicas quando têm infeções víricas, havia o receio que caso fossem infetados pelo novo coronavírus desenvolvessem reações graves. Entre as respostas encontradas na comunidade, os especialistas destacaram a Operação Luz Verde que possibilitou a entrega de medicamentos hospitalares ao domicílio e que até ao final de abril já tinha abrangido mais de 8.000 pessoas, o Programa de Acesso ao Medicamento Hospitalar (PAM-H) que tornou mais fácil e seguro o levantamento de medicação no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN) e que abrange doentes crónicos imunodeprimidos, e as iniciativas das Juntas de Freguesia. “Noites contra o COVID-19” é um ciclo de webinars que junta diversas entidades do setor para um debate credível e abrangente em torno da resposta à pandemia do novo coronavírus. A iniciativa é promovida pelo projeto COVID19PTCiência que junta a plataforma Evidentia Médica, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) e a UpHill.

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may 2020

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Noites contra o COVID-19 | Dia Internacional do Enfermeiro: a perspectiva da enfermagem no combate à pandemia COVID-19

Dos serviços de urgência aos cuidados intensivos, qual o papel dos enfermeiros no combate ao COVID-19? No Dia Internacional do Enfermeiro, as “Noites Contra o COVID-19” dão voz a estes profissionais. Celebrado anualmente no dia 12 de maio, o Dia Internacional do Enfermeiro foi criado pelo Conselho Internacional dos Enfermeiros e a data escolhida remete para o aniversário de Florence Nightingale, considerada a fundadora da enfermagem moderna. A propósito da data, o Presidente da República agradeceu e elogiou o contributo dos enfermeiros portugueses no combate à pandemia. Um outro texto publicado hoje no Observador refere que este ano, o dia é vivido “com um «sentido e sentir» emocional diferente e muito presente”, devido à pandemia que “veio pôr à prova o trabalho, o valor dos Enfermeiros e demonstrar que são insubstituíveis em qualquer sistema e equipa de saúde”. Neste webinar quatro enfermeiros partilharam as suas experiências em serviços de atendimento permanentes, enfermarias e unidade de cuidados intensivos, falaram sobre a importância destes profissionais para ajustar a respostas das unidades durante a pandemia e no acompanhamentos dos doentes e das famílias num contexto tão particular como o atual. Quanto à importância dos enfermeiros, as respostas foram unânimes: “a relação do enfermeiro com o doente é por natureza privilegiada” e este profissional estabelece uma proximidade que lhe permite “esclarecer, informar com honestidade e acompanhar o doente”. Além da comunicação com os doentes e com as famílias, o enfermeiro tem também um papel fundamental na convergência das equipas, na medida em que “é aquele que consegue perceber o doente e o serviço num todo e, consequentemente, aquilo que é preciso mudar”. Quanto ao futuro, - e porque tal como já aqui escrevemos “estamos numa maratona” -, os principais desafios apontados pelos oradores prendem-se com a reorganização das unidades de forma a encontrar um ponto de equilíbrio e abandonar a dicotomia doentes COVID-19 e doentes não COVID, a necessidade de manter a comunicação interna clara e eficaz para garantir a segurança de profissionais e doentes, à medida que os hospitais retomam a atividade programada e, no fundo, “manter a calma no caos” face aos vários prognósticos que chegam relativamente a uma possível segunda vaga da doença. Neste webinar participaram António Almeida, Enfermeiro PPCIRA e Gestor de Risco no Hospital CUF Viseu; Daniela Silva, Enfermeira de Atendimento Permanente no Hospital CUF Porto; João Branco, Enfermeiro Gestor da Unidade de Cuidados Intensivos no Hospital CUF Infante Santo; e Rosa Galvão, Enfermeira Gestora do Serviço de Especialidades Médicas 1 no Hospital de Vila Franca de Xira. “Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a plataforma Evidentia Médica e a UpHill.

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may 2020

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Noites contra o COVID-19 | Transformação digital na educação médica

O COVID-19 evidenciou que as Escolas Médicas não estão preparadas para a transformação digital. Neste webinar, debatemos as competências necessárias para esta mudança e os principais entraves à sua implementação. A educação médica pré e pós-graduada resiste à adoção em larga escala das ferramentas digitais. O uso formal de aulas online ou webinars ainda é raro, persistem as aulas de exposição nos moldes tradicionais e os alunos não aproveitam a multiplicidade de metodologias permitidas pelas ferramentas digitais. A transformação digital na educação médica tem sido um processo lento – “esperava que em 2005 tivéssemos atingido o ponto em que estamos hoje”, afirmou um dos participantes neste webinar – e, por vezes, desmotivador. Por um lado, a tecnologia evoluiu, existem ferramentas e recursos para ensino à distância que poderiam estar em pleno uso nas Escolas Médicas e hospitais. Por outro, existem momentos de ensino-aprendizagem nos quais o contacto presencial é a fonte de conhecimento. Que ferramentas e que conhecimentos são esses? Que competências são necessárias? Como se poderá dar a transformação digital na educação médica? 1. E-learning não é sinónimo de tele-learning No campo da educação médica, o conceito de e-learning tem sido confundido com tele-learning, ou seja, como uma metodologia de ensino à distância. Uma visão redutora, na opinião dos palestrantes, segundo os quais o desafio que se impõe é encontrar um equilíbrio entre os conteúdos e competências que podem ser digitalizados e aqueles que apresentam vantagens em ser lecionados num contexto de presença de professores e alunos. 2. Da exceção à regra: a integração digital só é real quando é obrigatória À semelhança do que aconteceu com outras áreas da digitalização da saúde, como por exemplo a prescrição, o sucesso da transformação digital das Escolas Médicas implica mudar os processos, ou seja, tornar regra aquilo que é atualmente a excepção. Adicionalmente, promover a integração e a interoperabilidade entre sistemas é mais vantajoso do que procurar um software para todas as necessidades. 3. Envolver os estudantes na transformação Os alunos querem tirar partido da tecnologia para a sua formação e sentem-se frustrados quando não há essa possibilidade. Na maioria dos casos mais bem preparados e abertos para as possibilidades de formação via ferramentas digitais, os estudantes podem mesmo ser os “líderes” desta transformação, dependendo da capacidade de cada faculdade criar uma rede de colaboração entre o corpo docente e os alunos. 4. Construir um modelo de formação misto com base em necessidades Num plano ideal, qualquer mecanismo de treino deve ser desencadeado por uma necessidade previamente identificada que é traduzida num objetivo a ser atingido pelo estudante. Depois identificar os objetivos e respetivas competências, o passo seguinte deste modelo passa por cruzar as metodologias existentes, desde as mais analógicas às mais digitais, e identificar as mais efetivas e apropriadas para responder a cada necessidade, tendo também em conta os recursos disponíveis em cada instituição. Neste webinar participaram David Riley, Head of European Relations da Fundación Iavante, Henrique Martins, médico e professor de Gestão e Liderança em Saúde na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade da Beira Interior (FCMUBI), Madalena Patrício, professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa ex -presidente da Association for Medical Education in Europe (AMEE), e Pedro Garcia, presidente da Sociedade Portuguesa de Simulação Aplicada às Ciências da Saúde (SPSim). “Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a plataforma Evidentia Médica e a UpHill.

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may 2020

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Noites contra o COVID-19 | Comunicação e Saúde em tempos de crise

Nunca se consumiu tanta informação como agora e nunca antes esta foi tão importante para a saúde da sociedade: em tempos de COVID-19, como se deve comunicar quando as perguntas são mais que as respostas? Em tempos de quarentena, os portugueses aumentaram o consumo de informação com especial destaque para a televisão e para os meios de comunicação social com presença online. Os números não deixam margem para dúvidas: entre a semana de 2 e 8 de março – altura em que surgiram os primeiros casos de COVID-19 em Portugal – e a semana de 16 e 22 de março, as visualizações semanais de sites de informação aumentaram dispararam 68%, segundo os dados divulgados pela Marktest. O mesmo cenário verificou-se nas audiências da televisão, com destaque para os canais informativos. Três mensagens-chave sobre Comunicação e Saúde em tempos de crise: 1. Mesmo que haja atraso: verdade, qualidade e rigor primeiro e assumir que ainda não há respostas “Não me recordo de outra altura em que as perguntas sejam mais notícia que as respostas”. Paula Rebelo, jornalista da RTP que há mais de 20 anos se dedica à cobertura de temas de ciência e saúde, garante que os tempos atuais são desafiantes também para quem informa, mas o sentido de responsabilidade “imensamente acrescido” que marca o contexto atual justifica que os jornalistas saibam esperar para divulgar a informação. Quando as respostas escasseiam, assumir que não se sabe é, segundo a jornalista, o caminho mais responsável. Hélder Silva, editor da RTP, acrescenta: “Não podemos eufemizar a realidade e dizer que sabemos aquilo que não sabemos. Podemos explicar que nós não sabemos, mas que há quem esteja a tentar saber, o que diminui a sensação de angústia e de pânico junto dos espectadores”. 2. Necessidade de transparência sobre as fontes de informação “Este é o momento de esclarecer e de comunicarmos cada vez mais”. Segundo o assessor de imprensa do Centro Hospitalar e Universitário São João (CHUSJ) a grande mudança na postura dos prestadores de cuidados de saúde decorre da mudança de foco das redações, que passaram a priorizar os temas de saúde, e do volume de questões que exigiu que as “portas do hospital” fossem abertas. As regras de comunicação de crise ditam que exista uma hierarquia da informação e porta-vozes definidos, mas no momento atual, e na visão da jornalista Paula Rebelo, justifica-se o contacto com outras fontes de informação que estejam a trabalhar no terreno de forma a “quebrar o ruído mediático de outros interlocutores” que podem ser contraproducentes no tão desejado trabalho de esclarecimento. 3. Traduzir informações complexas A literacia em saúde é a chave para este e outros problemas”. Duarte Brito, membro da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), considera que pandemia colocou os médicos especialistas em Saúde Pública debaixo dos “holofotes mediáticos”, circunstâncias que possibilitam que a informação seja veiculada por especialistas, de forma fidedigna. Uma realidade que acontece tanto entre especialistas em saúde pública e outros profissionais de saúde – que criaram agora canais de comunicação para o fazer –, como entre os profissionais e a população. No segundo caso, mais do que partilhar a informação, é preciso traduzi-la para a comunidade leiga: “Além de honestidade na forma como relatamos a realidade, é preciso oferecer alternativas à população”, conclui. Uma nota final deixada pelos vários oradores: o contexto atual é uma oportunidade para mudar a comunicação de saúde e criar sinergias entre os vários intervenientes no circuito. Nunca se consumiu tanta informação como agora e nunca antes esta foi tão importante para a saúde da sociedade. Neste contexto, que responsabilidade têm os órgãos de comunicação social? Que papel cabe às instituições públicas e aos gabinetes de comunicação dos hospitais? Que articulação deve ser feita entre fontes oficiais e jornalistas? Como se podem comunicar conceitos complexos de epidemiologia e, simultaneamente, assumir a incerteza que existe relativamente à doença? Estes foram alguns dos temas em discussão no webinar Comunicação e Saúde em tempos de crise, que juntou Duarte Brito, médico interno de Saúde Pública e membro da ANMSP, Hélder Silva e Paula Rebelo, jornalistas da RTP, Nuno España, diretor de Marketing e Comunicação dos Lusíadas, e Rui Neves Moreira, assessor de imprensa do CHUSJ e partner da CCCP. José António Pereira, também jornalista da RTP, moderou a conferência. “Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a plataforma Evidentia Médica, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) e a UpHill.).

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april 2020

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Webinar | #EstamosJuntos - Comemoração do Dia Mundial da Saúde

O Dia Mundial da Saúde, celebrado anualmente a 7 de abril, data escolhida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1948, ficou este ano marcado pelo combate ao COVID-19. Neste contexto, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), em parceria com a UpHill, juntou os representantes das várias profissões do setor para uma celebração à distância – tal como ditam as circunstâncias. “A saúde em todas as políticas”- palavra de ordem da OMS reveste-se agora de grande atualidade. A pandemia, que desafia todos os sistemas de saúde, exige respostas coletivas, onde ninguém é dispensável, para garantir o melhor a quem precisa de cuidados. Assistimos a um momento de mobilização global em torno de uma crise de saúde pública que é, por definição, transversal às várias esferas da sociedade, e prova que quando a este pilar é atingido, todas os restantes áreas fundamentais de um estado democrático são também afetadas. O esforço de articulação e integração de todas as instituições de saúde do setor público, privado e social é notório e deve continuar para, numa situação de emergência futura, o país ter uma resposta mais estruturada. O repto foi lançado por Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), e corroborado pelos restantes intervenientes ao longo do webinar. Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos; Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros; Ema Paulino, membro a direção nacional da Ordem dos Farmacêuticos; Orlando Monteiro da Silva, bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas; Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas; Jorge Cid, bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários; Isabel Trindade, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos; Melissa Cravo, representante do Fórum das Tecnologias da Saúde e Delfim Rodrigues, membro da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, juntaram-se a Ricardo Mexia, para dizer #EstamosJuntos. No final, três mensagens-chave: o reconhecimento unânime do sentido de missão e da “tremenda dedicação” de todos os profissionais chamados à linha da frente; a convicção de que o país nunca esteve tão unido em torno daquilo que é a saúde dos cidadãos; e a ideia de que a contenção da doença depende, essencialmente, de duas variáveis – a capacidade do sistema de saúde e a adoção de comportamentos responsáveis pela sociedade civil. A iniciativa foi organizada pela Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, em parceria com a UpHill, no contexto do projeto COVID19PT-CIÊNCIA.

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april 2020

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Noites contra o COVID-19 | Escolas Médicas na minimização do impacto da pandemia

Como estão as Escolas Médicas a mitigar as alterações nas atividades letivas? E que respostas podem dar à sociedade em tempos de pandemia? Reveja o segundo webinar das “Noites contra o COVID-19”. Num comunicado enviado às redações no início de março, o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas (CEMP) recomendou a suspensão de “todas as atividades letivas presenciais nas Escolas e nos Hospitais e Centros de Saúde associados”, “considerando a grande mobilidade de estudantes e docentes em ambiente hospitalar”. Uma resposta das Faculdades de Medicina face à evolução do COVID-19 em Portugal, que levantou, automaticamente, questões sobre a prática clínica dos estudantes, bem como em torno da avaliação. O tema foi mote para a conversa entre Sara Meirinhos, diretora de Educação Médica da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) e Joaquim Ferreira, presidente do Conselho Pedagógico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), no segundo webinar do ciclo “Noites contra o COVID-19”, moderado por Ricardo Carvalheiro, da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Médicas - NOVA Medical School. Do lado dos estudantes, as principais preocupações recaem no impacto que o contexto extraordinário atual possa ter na formação dos estudantes e, consequentemente, na futura prestação de cuidados e, adicionalmente, na equidade dos momentos de avaliação. Sobre como será feita a recuperação de aulas práticas, o CEMP já havia dito a solução será estruturada com a tutela, Joaquim Ferreira reforçou, nesta conferência, que estão a ser planeados um conjunto de estágios de formação prática não prevista no contexto habitual. A questão da avaliação está a ser definida por cada escola, mas “os formatos mais exigentes do ponto de vista do corpo docente podem não ser exequíveis”. Uma iniciativa UpHill em conjunto com a Evidentia Médica, ANMSP (Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública) e APMGP (Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar).

UpHill

april 2020

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Noites contra o COVID-19 | Como manter a coesão da sua equipa em tempos de COVID-19?

Uma conversa sobre liderança e motivação de equipas de saúde numa situação de crise. Reveja o terceiro webinar das “Noites Contra o COVID-19”. Vivemos hoje tempos excepcionais que levaram a Organização Mundial da Saúde (OMS) a considerar que o mundo entrou em “território desconhecido”, referindo-se ao contágio em grande escala do SARS-COV-2. Bastou um mês para que a situação fosse declarada emergência global. Em Portugal, o primeiro caso de infeção foi confirmado no início de março e, no dia em que publicamos este artigo, o número de infetados no país ultrapassa os 10 mil. Para responder à pandemia, os prestadores de cuidados de saúde foram obrigados a reorganizar-se, a criar as Áreas Dedicadas COVID-19 (ADC) em hospitais e centros de saúde, com impacto imediato na divisão das equipas e na sua rotatividade. O ambiente é exigente – pedem-se respostas rápidas e certeiras aos profissionais de saúde – e tem repercussões diretas nos níveis de stress das equipas. Lidar com a complexidade e com a incerteza que caracterizam o contexto atual não são tarefas fáceis, mas uma coisa é certa: a capacidade de dar indicações claras, delegar e adaptar a estratégia definida ao feedback recebido são características indispensáveis para quem gere equipas de saúde num contexto como o atual. “Como manter a coesão da sua equipa em tempos de COVID-19?” foi a pergunta de partida para mais uma sessão das “Noites Contra o COVID-19” que contou com a participação de Diogo Silva e Isabel Azevedo da Nobox, e Alexandra Fernandes, especialista em Medicina Geral e Familiar da USF Fernão Ferro. As respostas passam por humanizar as equipas, estar atento aos sinais de cada elemento, expor fragilidades e adequar o feedback para não ativar emoções negativas. Uma nota final para a necessidade de gerir a energia e as horas de descanso de forma a garantir níveis de produtividade a médio e longo prazo, até porque estamos numa maratona que ainda agora começou. Uma iniciativa UpHill em conjunto com a Evidentia Médica, ANMSP (Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública) e APMGP (Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar).

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april 2020

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Noites contra o COVID-19 | Abordagem à doença não-COVID em tempos de pandemia

À medida que a pandemia avança, aumentam também as preocupações em torno dos doentes não-Covid, que estão a evitar recorrer a serviços de urgência ou a adiar tratamentos com medo de serem infetados pelo SARS-CoV-2. Depois da Sociedade Portuguesa do AVC (SPAVC) ter alertado que, por causa do novo coronavírus, se verifica uma tendência para os doentes desvalorizem sintomas ou recusarem pedir ajuda médica, a questão ganhou especial atenção mediática com a divulgação de um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Universidade Nova de Lisboa. O documento aponta para uma redução de 45% das idas às urgências no mês de março, em comparação com a média de episódios registados entre 2014 e 2019. Uma situação preocupante, já que implica o adiamento de “situações que se tornarão mais graves no futuro”, conforme sublinham os especialistas que assinam o estudo. Outros dados vindos a público esta semana indicam que houve um crescimento da mortalidade ao longo do mês de março, período em que se verificaram, pelo menos, mais 600 vítimas mortais do que seria expectável. A situação levou a Ordem dos Médicos a pronunciar-se sobre o tema. Numa nota enviada às redações, o bastonário reconhece que “numa pandemia como a que estamos a viver é impossível conseguirmos manter toda a atividade normal e responder aos doentes com COVID-19 no SNS”, mas lamenta que se “esteja a fazer uma gestão meramente política desta pasta, em que parece que só os números da pandemia importam e todas as outras doenças e mortes deixaram de existir”. O tema foi abordado em mais uma sessão de “Noites contra a COVID-19” que contou com a participação de Ana Serrão Neto, coordenadora de Pediatria e Neonatologia dos Hospitais CUF Descobertas e CUF Torres Vedras; Ana Raimundo, diretora clínica da CUF Oncologia; e Micaela Seemann Monteiro, Chief Medical Officer para a transformação digital CUF. A moderação da conversa ficou a cargo de Catarina Palma dos Reis, médica de Ginecologia e Obstetrícia da Maternidade Alfredo da Costa. Segundo as oradoras, “a pandemia acelerou o desenvolvimento de uma consciência coletiva, com particular ênfase nos profissionais de saúde e nas administrações hospitalares, de que a digitalização é uma necessidade”, mas sublinham que o caminho percorrido anteriormente conferiu a capacidade de, num contexto muito particular e num período de tempo muito curto, escalar os serviços de teleconsulta. Além disto, as unidades reorganizaram os circuitos hospitalares de forma a separar doentes COVID e doentes com outras patologias e, por isso, reafirmam: continuam a existir outras doenças, com taxas de mortalidade iguais ou superiores, que não devem ser descuradas.

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april 2020

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Noites contra o COVID-19 | A saída da Pandemia: Saúde, Sociedade e Economia

A importância de não desvalorizar a incerteza económica, o agravamento das desigualdades sociais e a necessidade de antecipar um eventual aumento da incidência no levantamento do confinamento em mais um webinar das “Noites Contra o Covid-19” No terceiro período do estado de emergência e num momento em que o “regresso à “nova” normalidade” começa a ser estudado pelas entidades políticas, um bioestatística, um macroeconomista, uma médica médica interna de Saúde Pública e uma socióloga juntaram-se nas “Noites Contra o COVID-19”, para pensar as estratégias de saída da pandemia. Do caminho percorrido até então, a adoção precoce de medidas de distanciamento social e a colaboração entre a comunidade científica, o tecido empresarial e a sociedade civil ocupam os lugares cimeiros dos pontos positivos a destacar; enquanto a letalidade e amplitude da pandemia, a par do seu impacto económico e social, constituem as principais fontes de preocupação. As respostas da Saúde Pública e da Epidemiologia: A incidência da doença atingiu um nível que se mantém desde o final do mês de março. Genericamente, o país tem sabido responder à pandemia com esforços mobilizados entre os vários setores, mas entre os aspetos menos conseguidos, Ana Beatriz Nunes, médica interna de Saúde Pública, salienta os sistemas de informação que “muitas vezes, não respondem às necessidades da Saúde Pública pela lentidão do seu funcionamento”, “as fragilidades dos fluxos de informação entre os vários níveis do sistema de saúde” e a falta de celeridade na obtenção de resultados laboratoriais. Baltazar Nunes, epidemiologista, destaca que “mais importante que prever o que vai acontecer é saber que ações tomar para alterar o percurso de como a pandemia se está a desenvolver”. O regresso à convivência social, deve, por isso, ser feito de forma lenta e faseada, “medida por medida” para avaliar o impacto epidemiológico e social de cada uma, no sentido de assegurar que o número de novos casos se mantém abaixo do limiar da sobrecarga do sistema de saúde. Os dois especialistas não afastam a possibilidade de o levantamento das medidas restritivas ser acompanhado de um aumento do número de novos casos de COVID-19, pelo que destacam a importância de acompanhar os indicadores de mortalidade e letalidade, a dinâmica de transmissão do vírus e monitorizar a capacidade hospitalar, nomeadamente a capacidade de resposta das unidades de cuidados intensivos e a disponibilidade de ventiladores. Um retrato sociológico da pandemia: Os efeitos económicos da pandemia são assimétricos, os jovens defendem mais medidas de restrição e são os mais velhos quem tem mais facilidade em lidar com o confinamento e mais confia nas fontes oficiais. Os dados são de um inquérito realizado entre 25 e 29 de março, pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa e Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) que inquiriu 11.500 pessoas para avaliar o impacto social do COVID-19. As conclusões levam Rita Gouveia, investigadora do ICS, a afirmar que “a pandemia também é uma realidade sociológica”, que veio “agravar desigualdades e vulnerabilidades sociais que já existiam”. Apesar de um terço dos inquiridos revelar dificuldade em lidar com as restrições impostas pelo estado de emergência, os efeitos económicos e sociais da pandemia são assimétricos e essa assimetria tenderá a acentuar-se ao longo do tempo. Na fase inicial da pandemia as pessoas em situação económica mais precária já eram as mais afectadas financeiramente, por efeitos de desemprego, perda parcial de rendimento ou férias forçadas. As preocupações relativamente ao futuro prendem-se, sobretudo, com o percursos escolar e académico, no caso dos jovens entre os 16 e os 24 anos, e a dificuldade de conciliar trabalho e família para os adultos em idade ativa. A incerteza dos consumidores no regresso à normalidade: “Uma situação única do ponto de vista económico, que não é comparável a nada que tenha acontecido nos últimos 100 anos. A explicação está na origem do problema: combater uma crise de saúde pública implica medidas de confinamento e distanciamento social que envolvem uma paragem controlada e voluntária da economia. Os efeitos, mais ou menos permanentes, das medidas dependem, naturalmente, da duração do problema do ponto de vista da Saúde Pública e, consequentemente, do prolongamento da interrupção de parte da atividade económica. Ainda assim, Miguel Faria-e-Castro destaca: “levantar as medidas de confinamento demasiado cedo, antes de a situação estar controlada, pode ter custos permanentes para a economia”. De acordo com o macroeconomista, não é vantajoso “reabrir a economia por decreto” por uma questão incerteza e falta de confiança do ponto de vista do consumidor. Uma nota final para a situação europeia e os coronabonds: “ou os critérios de Maastricht são relaxados, e a União Europeia deixa que os estados-membros gastem mais do que está estipulado, ou os gastos relacionados com a situação atual têm que ser mutualizados”. Com moderação de André Peralta Santos, investigador da Universidade de Washington e membro da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), o webinar contou com a participação de Ana Beatriz Nunes, médica interna de Saúde Pública no ACES Alentejo Central e secretária geral da ANMSP; Baltazar Nunes, do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e professor de Estatística e Epidemiologia na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP); Miguel Faria-e-Castro, macroeconomista e investigador da Reserva Federal de St. Louis; e Rita Gouveia, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL). “Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a plataforma Evidentia Médica, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) e a UpHill.).

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april 2020

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Noites contra o COVID-19 | Cuidadores de lares e cuidadores informais

Novas vias de comunicação e uma estratégia concertada nos municípios para retirar pessoas infetadas dos lares. Reveja o primeiro webinar das Noites contra o COVID-19. O mundo está ainda a aprender a lidar com a covid-19 e com o vírus que a causa, o SARS-Cov-2, que, em termos globais, já infectou mais de 600 mil pessoas. Nesta fase, sabemos que a idade é um dos principais fatores de risco: os idosos, que apresentam frequentemente problemas de saúde pré-existentes - como doenças cardiovasculares, hipertensão ou doenças crónicas - tendem a desenvolver quadros clínicos mais severos. Evitar o contágio nos lares deve, por isso, ser uma prioridade, de forma a evitar que se tornem focos da doença. Além da restrição das visitas - uma das medidas já tomadas que permitiu diminuir a exposição ao risco -, o reforço das medidas de higiene, o distanciamento físico e a monitorização da sintomatologia de utentes e profissionais, o plano de ação destas institui��ões implica uma estrutura concertada com as entidades municipais que permita retirar infetados do lar, mas não os levar para os hospitais quando não existem condições clínicas que o justifiquem. A primeira conferência virtual de um ciclo organizado pelo COVID19PTCiência, projeto do qual a UpHill faz parte, juntou Ricardo Mexia, da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), Rui Nogueira e Margarida Dias, da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), João Araújo Correia, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), e David Rodrigues, coordenador do Evidentia Médica. Em discussão estiveram para questões relacionadas com o plano de contingência das Estruturas Residenciais para Idosos (ERPI), a utilização de equipamentos de proteção individual por cuidadores de lares e cuidadores informais e a realização de testes a esta população. Uma iniciativa UpHill em conjunto com a Evidentia Médica, ANMSP (Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública) e APMGP (Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar).

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april 2020

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Noites contra o COVID-19 | Indústria Farmacêutica e COVID-19

Os farmacêuticos também estão no centro da pandemia: neste webinar juntamos a indústria química portuguesa que passou a produzir gel desinfectante e a multinacional com três medicamentos candidatos ao tratamento COVID. Um mês e meio depois de ter sido anunciado o primeiro caso positivo de COVID-19 em Portugal e na iminência de ser renovado o estado de emergência, o país anseia pelo dia em que seja anunciada a descoberta de uma arma terapêutica eficaz contra a doença. A resposta vai chegar, segundo a bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, mais rápido do que aconteceu em pandemias anteriores, mas apesar de toda a evolução do conhecimento e da ciência, antes de haver um tratamento ou vacina, vamos habituar-nos a «conviver» com o vírus. Sem vacinas, medicamentos ou imunidade de grupo, existem medidas não farmacológicas que terão, necessariamente, que marcar o retorno à normalidade, de forma a “comprar tempo” que permita chegar às opções enunciadas anteriormente e garantir que o número de casos de infeção em Portugal não excede a capacidade do sistema de saúde. O webinar das “Noites contra o COVID-19” dedicado à indústria farmacêutica juntou Ana Paula Martins, bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, Peter Villax, chairman da Hovione, Roberto Abi Rached, diretor médico da Novartis Portugal, e Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, para uma conversa sobre o papel do setor em emergências de Saúde Pública como o atual. As respostas dividem-se essencialmente em dois pilares: por um lado a manutenção da dispensa de medicamentos à população, farmácias e hospitais, nomeadamente para garantir que pessoas com doenças graves continuam a receber o tratamento adequado; por outro lado, o combate direto ao COVID-19, através da reorganização da investigação científica e da priorização de ensaios clínicos para o desenvolvimento de fármacos e vacinas para a doença. Quando existirá um tratamento disponível, que tratamento e com base em que a evidência científica são alguma das preocupações da comunidade na fase atual, até porque, num contexto de conhecimento acelerado, tem existido alguma “tolerância” relativamente à evidência disponibilizada e, consequentemente, muita desinformação que coloca “dúvidas sobre a efetividade das soluções encontradas”. Quanto à capacidade da indústria face a uma nova vaga da doença, Peter Villax destaca a necessidade de reformar o sistema de desenvolvimento clínico e de investigação de novas moléculas “que faz com que o resultado final demore 10 anos a chegar às farmácias”. Já a bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, considera que o contexto atual representa grandes desafios, mas também “uma enorme oportunidade para a Europa voltar a adquirir alguma soberania em áreas como a produção de medicamentos e dispositivos médicos para não ficar à mercê de outros continentes”. Recorde-se que, recentemente, a Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (APIFARMA) alertou para a importância das empresas de base industrial em Portugal continuarem a assegurar o fabrico de medicamentos e dispositivos médicos, essenciais para o país, tendo em conta o contexto epidemiológico no país. Adicionalmente, foi assinado um protocolo com a Ordem dos Médicos e com a Ordem dos Farmacêuticos para reunir contributos da indústria e apoiar a contenção da pandemia. A Hovione, que está na corrida para na corrida à produção e comercialização de uma vacina contra o novo coronavírus, anunciou, em meados de março, a decisão de usar parte da sua capacidade para produzir gel desinfetante e doá-lo a várias instituições e, desde então, já distribuiu cerca de 138 toneladas de produto. Por sua vez, a Novartis criou um fundo global de 20 milhões de dólares para apoiar as comunidades afetadas pela pandemia. “Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a plataforma Evidentia Médica, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) e a UpHill.

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april 2020