march 2020 • European Journal of Clinical Investigation

Coronavirus disease 2019: the harms of exaggerated information and non‐evidence‐based measures

John P.A. Ioannidis

DOI: 10.1111/eci.13222

Key message

É necessário ter atenção e evitar artigos sensacionalistas errados. As estimativas iniciais da taxa de infeção a nível global podem ser exageradas, assim como as que antecipam a taxa de mortalidade. A proporção de infeção não detectada é desconhecida, mas provavelmente varia entre países e pode ser muito grande no geral. Por isso, é necessário ter em conta que as curvas epidemiológicas relatadas são amplamente afetadas pela disponibilidade do teste pela deteção do vírus ao longo do tempo. Das múltiplas medidas adotadas, poucas têm forte evidência e muitas podem ser prejudiciais. O pânico instalado na comunidade com máscaras e equipamentos de proteção, além do internamento injustificado pode ser altamente prejudicial aos sistemas de saúde. Medidas extremas, como a quarentena, podem ter um grande impacto na vida social e na economia, de momento dificil de prever. As comparações e extrapolações com a pandemia de influenza de 1918 são infundadas e podem ser prejudiciais já que geram mais pânico.

Analysis

Method

Artigo editorial que aborda vários aspetos importantes como o impacto de notícias falsas, artigos entretanto retirados pela sua má qualidade metodológica. Reflete ainda sobre estimativas exageradas, medidas extremas, o impacto do isolamento, consequências a nível social e económico, uma comparação com a pandemia de 1918 e ainda lições a retirar desta pandemia.

Results

Notícias falsas e estudos não baseados em evidência: Alguns artigos com Altmetrics muito elevados chegam até um elevado número de profissionais, no entanto é necessário ter em atenção que a rápida publicação de literatura científica, nesta fase pode também contar com falta de validação por pares. É importante ler criticamente aquilo que é publicado sob pena de se instituirem alterações indevidas no nosso meio de atuação. Atenção especial a literatura com pouca evidência, mas fortes opiniões. Estimativas exageradas sobre a infeção global e a sua disseminação levam ao caos, quer entre a população, quer entre profissionais de saúde, pelo que os números devem ser analisados conforme o contexto e respetivas medidas tomadas. Da mesma forma, devem ser vistos com cuidado os números relativos a mortalidade elevada, pois podem estar a ignorar casos de infeção não diagnosticados. O cenário mais completo de dados remete para os passageiros do Diamond Princess, com taxa de letalidade de 1%, numa coorte por si já idosa, pelo que se depreende que na população geral a taxa de letalidade possa ser muito inferior a 1%, embora um pouco mais alta que a gripe sazonal. Das estimativas em países mais massivamente testados, Coreia do Sul e Alemanha, as taxas de letalidade rondam os 0.7 e 0.2% respetivamente. Disseminação comunitária exponencial - a leitura desta curva é muito dificil. Parte do crescimento poderá eventualmente ser justificado pelo crescente número de testes realizados, mais até do que pelo verdadeiro crescimento da epidemia. A realização dos mesmos reflete primariamente a sensibilização da população e o seu desejo em ser testada. Medidas extremas - Circunstâncias alarmantes levam à adopção de medidas extremas, cuja eficácia ainda não é totalmente conhecida. Uma revisão sistemática não encontrou evidência suficiente para a realização de triagem nos portos e distanciamento social na redução da propagação de epidemias. Sabe-se sim que as medidas higiénicas como a lavagem frequente da mãos e isolamento social quando estão doentes são medidas bastante úteis. Potenciais consequências de medidas não baseadas em evidência - A incerteza leva-nos a optar por maior cautela e implementar medidas de contenção mais severas. No entanto, ações impulsivas podem realmente causar grandes danos. Um exemplo claro é o pânico que esgotou o fornecimento de máscaras faciais, a subida exagerada de preços e a falta de recursos humanos. Equipamentos de proteção individual são necessários para o pessoal médico e a sua incorreta utilização por outros pode colocar em risco a vida dos profissionais de saúde. Dificuldade alocação de recursos - A pressão política para a tomada de decisões é grande, com muitos opositores que permanentemnte irão criticar a inação. Por outro lado a tomada de atitudes num país, aumenta a probabilidade da adoção noutro país sob pena de acusação de negligência caso não o seja feito. Medidas de quarentena - manter um país em quarentena durante vários meses pode trazer consequências mais nefastas a um país do que a própria pandemia. Manter o foco na susceptibilidade individual poderá ser mais útil do que uma quarentena global de longa duração. Consequências económicas e sociais - Os potenciais danos na economia global são grandes. Os mercados globais atingiram a pior fase desde o ano de 2008. É importante que politicamente medidas mais austeras relativas a um estado de emergência não sirvam para outro tipo de interesses políticos potencialmente perversos. Pandemia do século - A atenção mediática para a infeção por corona vírus é grande e os mídia potenciam a curiosidade, incerteza e o horror em torno do quadro. Há também a comparação com a pandemia de 1918 que matou 20-40 milhões de pessoas. É importante ter em conta que neste momento lidamos com milhares e não com dezenas de milhões de mortes. Lições a retirar da COVID-19 - Ainda que o cenário possa não ser idêntico à pandemia de 1918, é importante aprendermos e estar melhor preparados. Devemos conhecer melhor a transmissão, duração da imunidade, efetividade de diferentes métodos de contenção e mitigação, o papel das crianças na disseminação viral e avaliação da efetividade de vacinas e medicamentos para encontrar a solução mais adequada. Testes de diagnóstico em larga escala devem ajudar a obter estimativas mais imparciais dos casos, número básico de reprodução e CFR. Assim como a realização de estudos experimentais adequados inclusivé para avaliação de medidas simples como o uso de máscara em diferentes contextos, o efeito do distanciamento social e políticas de gestão de cuidados de saúde. Acima de tudo precisamos de evidência e a partilha aberta de dados científicos é um requisito mínimo. Se o COVID-19 não for tão grave quanto é descrito, altos padrões de evidência são igualmente relevantes. O exagero e a reação exagerada podem prejudicar seriamente a reputação da ciência, saúde pública, mídia e formuladores de políticas de saúde. Isto pode levar à descrença que compromete perspectivas de uma resposta adequadamente forte se e quando ocorrer uma pandemia mais importante no futuro.

Abstract

The evolving coronavirus disease 2019 (COVID‐19) pandemic1 is certainly cause for concern. Proper communication and optimal decision‐making is an ongoing challenge, as data evolve. The challenge is compounded, however, by exaggerated information. This can lead to inappropriate actions. It is important to differentiate promptly the true epidemic from an epidemic of false claims and potentially harmful actions.