march 2020 • Sociedade Portuguesa de Cardiologia

Posição da Sociedade Portuguesa de Cardiologia sobre a utilização de IECA e ARA II no contexto da pandemia do COVID-19

António Pedro Machado, Carlos Rabaçal

DOI:

Abstract

No contexto da actual pandemia, a segurança dos IECA e ARA II foi questionada em dois artigos de opinião, tendo os autores sugerido que os doentes sob tratamento com estes fármacos poderiam estar sujeitos a uma evolução mais grave da doença, em caso de infecção pelo coronavírus 1,2. Na origem destas preocupações há razões teóricas legítimas apoiadas em dados epidemiológicos; no conhecimento disponível dos mecanismos patogénicos da infecção pelos coronavírus; na resposta inflamatória do hospedeiro às infecções e das complexas vias de sinalização envolvidas; e no mecanismo de acção dos IECA e ARA II. Algumas das extrapolações publicadas baseiam-se em resultados de estudos que mostraram, entre os doentes com o COVID-19, ser a prevalência de hipertensão (HTA) mais elevada nos que desenvolveram doença grave, incluindo ARDS e morte, do que nos que tiveram uma evolução mais favorável3,4. Porém, à excepção de um estudo com 191 casos5, não foram feitas análises ajustadas dos resultados, razão por que os estudos não permitem, com segurança, associar o pior prognóstico dos doentes à presença de HTA, cuja prevalência variou entre 23,7% e 58%3-5. Apesar de o tratamento anti-hipertensivo prévio não ter sido avaliado em qualquer dos estudos em causa3-5 , os autores procuraram estabelecer uma relação de causalidade entre a terapêutica anti-hipertensiva e o pior prognóstico observado nos hipertensos infectados pelo COVID-19. Dado os bloqueadores do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA) - IECA e ARA II serem dos fármacos mais utilizados no tratamento da HTA, admitiram aqueles autores que estes fármacos poderiam ter tido um efeito facilitador da invasão viral e das suas complicações1, notavelmente a ARDS6. Não foi considerada a hipótese alternativa de a hiperactividade do SRRA, presente nos hipertensos e agravada pelo SARS-CoV, ser um dos determinantes major da amplificação do processo inflamatório desencadeado pelo hospedeiro em resposta à invasão viral. Acontece que na China, onde 37% da população entre os 37 e os 75 anos é hipertensa e 44% das mortes são atribuídas às doenças cardiovasculares, apenas 23% dos hipertensos estão sob tratamento anti-hipertensivo7. Como a taxa de prescrição dos ARAII /IECA na China é inferior a 7.5%7 e porque a associação das duas classes não está recomendada, dos mais de 250 milhões de hipertensos existentes, menos de 4,5 milhões estarão em tratamento com um ARA II ou IECA7. Desta forma, pela força dos números, não é possível estabelecer-se uma relação de causalidade entre o pior prognóstico observado nos hipertensos com infecção pelo COVID-19 e o tratamento com ARA II ou IECA.